08/07/2018 às 21h03min - Atualizada em 08/07/2018 às 21h03min

A importância da água no desenvolvimento social de uma cidade

Abdul Rehman Mangá
Abdul Rehman Mangá - Hajj Hamzah
Hajj Hamzah
Ontem participamos de uma reunião dirigida pelo Cirurgião Vascular Cristovão Canedo Gomes, onde ele mencionou a importância da água no progresso de uma cidade. E citou exemplos de cidades que definharam em consequência dessa carência e de outras que deslancharam após resolver a situação do fornecimento sistemático da água.
Corumbaíba é um dos quase 80 municípios goianos que sofrem por falta de uma política séria de captação de água. Nossa base de fornecimento é uma captação em um córrego, que na estação da seca praticamente corre apenas um pequeno veio de água, complementada com alguns poços artesianos. Isso é totalmente insuficiente para atrair para nosso município indústrias de vários gêneros
Como representante da Comunidade do Islam em Corumbaíba Goiás, concordo em número, gênero e grau com o que foi tratado naquela reunião. E passamos a discorrer o que nossa Religião pensa a respeito da água.
A água é o símbolo de pureza e fonte da vida. Tem um papel fundamental no cumprimento dos nossos rituais religiosos, ao ponto de compararmos a higiene, à metade da fé. Esta ligação da higiene à fé, repetida com muita frequência nos ensinamentos religiosos, revela a importância da limpeza, no cumprimento dos atos de adoração.
A importância da água no Islam, ao longo dos últimos séculos, é bem visível nas fontes, cisternas e nos banhos públicos que ainda hoje se podem admirar, não só nas diversas cidades muçulmanas, mas também nos países outrora ocupados pelos muçulmanos.
Na época do Império Otomano, uma das contribuições de caridade praticadas pelos mais abastados, era constituída por cedências de fontes de água, para consumo dos mais necessitados. Ainda hoje se verifica essa tendência, porque os ensinamentos do Profeta referem; “As ações do homem chegam ao fim com a sua morte, porém, a recompensa das ações mantêm-se com a perfuração de um poço que possa beneficiar os necessitados”.
A água acompanha o crente, no seu nascimento, na sua vida, na sua morte e na vida após a morte. Quando ouvimos as palavras “as águas rebentaram”, elas anunciam que um novo ser está para nascer. Uma nova vida vai iniciar!
A água da chuva, a água dos rios e a água das fontes, correm pelas páginas do Alcorão e nos ensinamentos do Profeta, transmitindo aos crentes a benevolência de Deus para com os Seus servos. A água foi o primeiro elemento criado, conforme refere o Alcorão: “E Ele criou os céus e a terra em 6 dias, quando antes, abaixo do Seu Trono, só havia água.” 11:7
No Alcorão, encontramos outras passagens relacionadas com a água, como por exemplo:
"Na criação dos céus e da terra; na alteração do dia e da noite; nos navios que singram o mar para o benefício do homem; na água que Deus faz cair do céu, com a qual vivifica a terra, depois de ter sido árida e dispersando nela todas as espécies de animais; na mudança dos ventos e nas nuvens submetidas entre o céu e a terra, (nisso tudo) há sinais para aqueles que são sensatos." 2:164
Para o muçulmano, o banho completo é obrigatório, pelo menos uma vez por semana, em especial na sexta - feira, a fim de se apresentar limpo e perfumado na oração semanal em congregação de sexta-feira, dia sagrado dos muçulmanos. O banho completo torna-se também obrigatório, nomeadamente, após as relações íntimas com o seu conjugue, após o parto e antes da conversão ao Islam.
Uma alma nobre só pode residir num corpo limpo. A pessoa só pode obter a pureza interna se manter a higiene externa. Após as suas necessidades naturais, o muçulmano lava as suas partes privadas. As suas vestes devem estar limpas. Com o corpo limpo e com esta pureza interna do coração, ele então aproxima-se do Criador, ganhando a Sua satisfação.
Os muçulmanos efetuam diariamente 5 orações, cumprindo assim com o segundo dos 5 pilares do islão. As orações são precedidas de abluções, que permitem ao crente purificar-se, física e espiritualmente. Segundo os ensinamentos do nosso Profeta, a oração sem a pureza não é aceite, como também Deus não aceita a caridade dada através da riqueza ilícita.
A ablução consiste em lavar as mãos, o rosto, a boca, os braços, as orelhas e os pés. Não é uma simples lavagem, mas também a limpeza dos pecados. As mãos tocam, a boca fala e come, o nariz cheira, os ouvidos escutam (o bem e o mal) e os pés caminham tanto para o bom ou para o caminho proibido por Deus. Este ato purificador com água, permite ao crente estar pronto para a oração e para recitar os versículos do Alcorão.
O banho e a ablução purificam não só o corpo, mas também a alma, tornando-os num único elemento.
A água é um bem precioso para a humanidade. Existem diversas exortações no sentido de se poupar a água e de se preservar as respectivas fontes. É um pecado grave o consumo da água para além do necessário.
Toda a existência do ser humano pode constituir uma verdadeira adoração a Deus, se forem cumpridas as regras divinas. Caso contrário, conduzir-nos-á ao que foi referido pelo também Profeta do Islão, Jesus, que a Paz de Deus esteja com ele, quando referiu: “Aquele que só procura as coisas do mundo é como o homem que bebe a água do mar: quanto mais bebe, mais sede tem, até morrer”.
O quinto pilar do Islão refere a obrigatoriedade do muçulmano, financeiramente capaz, de pelo menos uma vez na vida, efetuar a Peregrinação a Makka. Os rituais religiosos que o crente vai praticar durante a peregrinação, relacionam-se com as aflições sofridas pelo Profeta Abraão e sua família.
Cumprindo ordens de Deus, o Profeta Abraão (Que a Paz de Deus esteja com ele), deixou a sua segunda esposa Hajar e o seu filho pequeno, o Profeta Ismael, perto da Caaba, em Makka, com uma pequena provisão de alimentos. Passados dias, o leite materno e as provisões acabaram e a esposa do Profeta preocupada, percorreu por 7 vezes a distância que separa os montes Safa e Marwa, procurando ajuda de alguma caravana. Enquanto ela corria de um lado para o outro, o pequeno Ismael chorava e mexia com o pé. Com este gesto, acabou por cavar, com a ajuda do anjo Gabriel, uma saliência donde brotou água. Foi com esta água que a esposa do Profeta e a criança se alimentaram até ao regresso de Abraão. Esta água, denominada de Zam Zam, brota até hoje em quantidades necessárias para consumo de todos os peregrinos e também dos residentes da cidade Maka (Arábia Saudita). É considerada uma água sagrada e purificadora.
Os muçulmanos, lembrando este acontecimento, cumprindo com um dos rituais da peregrinação, também percorrem por sete vezes os dois montes e depois bebem a água para se purificarem dos pecados cometidos ao longo da vida. Os peregrinos ao regressarem às suas casas presenteiam os seus amigos e familiares com embalagens de água de Zam Zam.
A água também não larga o crente após a sua morte. O seu corpo será lavado e perfumado pelos seus familiares e amigos selecionados para o efeito. Será depois embrulhado com um pano branco, assim como o foi quando nasceu. Seus amigos e familiares o transportarão para a sua segunda morada provisória e aí será enterrado. Os acompanhantes regressarão às suas casas e aos seus afazeres mundanos. Com ele, ficarão somente as boas e as más ações praticadas neste mundo. A sua sepultura será exígua, escura e a solidão do lugar, lembrar-lhe-á que também que já esteve num lugar mais pequeno, na barriga da sua mãe, onde sobreviveu, graças a ajuda de Deus.
Após a ressurreição, espera pela vez de ser presente perante o Seu Criador, para a prestação de contas. O medo e as preocupações, serão imensas.
Sentirá uma sede que o atormentará ainda mais. Então, o Profeta Muhammad (Que a Paz e as bênção de Deus estejam com ele), o reconhecerá pelo brilho das partes do seu corpo onde a água lavou, quando efetuava as suas abluções. Dar-lhe-á de beber a água de Kauçar, que será a mais límpida que a água, mais branca que o leite e mais doce do que o mel. Com a sede saciada, sentir-se-á mais aliviado e pronto para estar perante Aquele que é Justiceiro, mas também, o Perdoador.
Na vida depois da morte, só existirão duas vivendas: O inferno e o paraíso. Estas duas vivendas serão construídas ainda neste mundo, pelas más ou boas ações praticadas por cada um de nós. A água é também um elemento importante no paraíso. Se o merecermos, então habitaremos num local onde nada nos faltará, segundo refere o Alcorão: “…No Paraíso, há rios de água não poluída e rios de leite de sabor inalterável e rios de vinho deliciosos para os que o bebem e rios de mel purificado…” 47:15.
No dia do julgamento, Deus ignorará o homem que tinha água suficiente, mas que não a cedeu ao viajante. Deus não enviou só a água para mostrar a sua benevolência. A água também foi enviada em dilúvios para destruir povos descrentes. Nestas circunstâncias, a água também pode constituir um meio de castigo como refere o Alcorão: “…quanto aos incrédulos……será derramada sobre as suas cabeças, água fervente”. 22:19.
Rumi, um dos eminentes poetas sufis, referiu acerca da água:
“Ele chegou…. Chegou aquele que nunca partiu; Esta água nunca faltou a este riacho; Ele é a substância do almíscar e nós, o seu perfume; Alguma vez se viu o almíscar separado do seu cheiro?”.
Termino esta minha intervenção com um ditado brasileiro dos meus tempos de criança e que deu origem a uma canção famosa.
A ÁGUA LAVA TUDO, A AGUA SÓ NÃO LAVA A LINGUA DESSA GENTE.
A paz esteja convosco.
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